Os Puris da Serra dos Arrepiados, hoje Serra do Brigadeiro



Os índios Puris eram hábeis pescadores que viviam originalmente no Litoral do Espírito Santo e Rio de Janeiro. No entanto, tiveram que se adaptar às regiões serranas a partir de 1500 em conseqüência da chegada dos portugueses, e a conseqüente escravização, algo que os Puris não suportavam, comum em todas as tribos.

Foi então que se viram forçados a se acuar pelo interior do Brasil. Em uma dessas imersões chegaram à região da Serra do Brigadeiro, um dos seus últimos redutos, antes denominada Serra dos Arrepiados. Encurralados pelos europeus e por algumas tribos indígenas mais selvagens como os Boruns, mais conhecidos por Botocudos ou Aymorés, dominantes do Vale do Rio Doce. A única opção de sobrevivência foi mesmo se adaptar às matas fechadas e ao frio da Serra dos Arrepiados, nome esse dado em referência aos Puris. Em 1680 o Capitão Antônio Raposo de Barretos, em uma de suas “Bandeiras” na caça aos índios, escrevendo ao correspondente comercial no Rio de Janeiro, expressava receio de perder os 40 (quarenta) Puris que seu filho tinha trazido da Serra da Mantiqueira.

Em 1693, outro bandeirante chamado Antônio Rodrigues de Arzão, tendo em uma de suas expedições partindo de São Vicente e passando por Taubaté a procura do Pico do Itacolomi (referência para os bandeirantes em suas expedições pela região do interior de Minas) marchou para a Serra do Guarapiranga com o objetivo de prear índios. Avistou a Serra dos Arrepiados que lhes pareceram mais próximas do que realmente estavam, desceu em sua direção e alcançou o Rio Piranga, onde vagavam alguns índios da nação Puri, que lhes deram notícias da existência de ouro na região do Casca e os guiaram até a Serra dos Arrepiados, alojando-os em uma choça de casca de madeira, denominada Casa da Casca, nome que posteriormente foi transferido ao Rio Casca, o qual conserva até hoje. Nesta ocasião foram recolhidas amostras de ouro e vários índios foram levados.


Com a descoberta do Ouro na região, outros bandeirantes investiram nesta região, porém só a partir de 1780, com a nomeação de D. Rodrigo José de Menezes a Governador da Capitania de Minas Gerais, que realmente começaram o extermínio aos Puris dos Arrepiados. Com a crise do ouro e preocupado em aumentar os campos das minerações, e sabendo da existência de ouro na região da Serra dos Arrepiados, de imediato organizou-se expedições para a região, sendo a primeira datada de Julho de 1780 com permanência de um ano, onde ocorreram várias mortes e escravização de índios Puris.

A segunda expedição, de Julho de 1781, foi mais desbravadora. Com a vinda do próprio governador e por mando seu, na ocasião fundou-se o Arraial dos Arrepiados (hoje Araponga). Por toda a região foram feitas abertura de caminhos, distribuição de terras e incentivo à mineração e à agricultura. Os conflitos entre índios e brancos se tornaram então cada vez mais freqüentes e contínuos, acarretando então na matança dos índios que não eram, à época, considerados, pelos “invasores”, ou melhor, pelos europeus, donos das terras nem seres dignos de respeito.

Com isto, viu-se a necessidade de intensificar o processo de “civilização”, criando aldeamentos sem nenhum critério, misturando-se tribos e etnias diferentes, introduzindo, sem nenhum respeito à sua cultura, os valores europeus. Os índios que se rebelavam ou aqueles que não se submetiam a tal, eram caçados e praticamente exterminados através de guerra bacteriológicas principalmente com o vírus da varíola introduzida aos índios através de presentes. Também eram comuns massacres promovidos por soldados do governo e até mesmo o estímulo de guerras entre tribos, além de matanças isoladas, promovidas por fazendeiros, que se viam no direito de eliminar “obstáculos”.

O índios Puris só conseguiram sobreviver por mais tempo devido à sua imersão em matas e serras de difícil acesso, como a Serra dos Arrepiados, que até ao final do século XIX, mantinham-se boa parte de sua cultura e costumes, alguns destes ainda preservados por famílias, que a priori, se dizem descendentes dos indígenas.

Até pouco tempo julgava-se extinta a cultura e o povo Puri, porém, mais recentemente, tem-se notícia da existência de inúmeros descendentes que guardam a língua, a história, os costumes e outros saberes, além de marcarem presença no folclore e no imaginário religioso.

Os Índios Puris são lembrados até hoje através de suas heranças culturais, podendo-se destacar a Dança de Caboclo, uma das mais importantes manifestações folclóricas da nossa região. Esta dança é praticada hoje sob a forma de apresentação artística, pelo grupo FOLGUEDO dos ARREPIADOS.

De acordo com pesquisas realizadas, esta dança era praticada pelos próprios índios Puris, com o passar do tempo e devido a uma forte perseguição à sua cultura, principalmente as de maior expressão, como as danças e outros rituais religiosos, foram sendo deixadas pelos seus últimos remanescentes, inibidos, e em alguns casos proibidos de cultuar e praticar seus costumes. Daí então, em memória aos Puris, descendentes e remanescentes começaram a praticar a dança e cantos em forma de folclore, surgindo a popular “Dança dos Caboclos”.

Dança dos Caboclos

Não podemos dar com precisão a data exata que esta manifestação se iniciou, mais temos evidencias como músicas e cantos da prática destas manifestações culturais de quase um século. Depoimentos como da Sra. Geralda Viana, mais conhecida como "Geraldina Viana", nascida aos 10/06/1912, na data da entrevista, com 91 anos, ainda gozava de boa saúde física e mental, nos relatou que aos 12 anos de idade lembra de seu Tio João Bernardes Viana, mais conhecido como "Joãozinho Viana", ainda moço, liderando o grupo de caboclos e que o seu sucessor foi o Senhor atendido pelo apelido de "Zé Romão", sem referências de período de atuação.


Na década de 50, já temos registros fotográficos da apresentação do Grupo, liderados pelo Senhor atendido por "João Amaro". A partir de meados da década de 60, o Grupo passou a ser liderado pelo Sr. Eugênio Lopes de Assis, mais conhecido como "Ginico Lopes", que dirigiu o grupo por mais de 20 anos que ao final por motivo de saúde se afastou deixando o Sr. "Pedro Belo"incumbido de liderar o grupo, mesmo gozando de pouca saúde "Ginico Lopes" continuou envolvido com a manifestação, vindo a falecer pouco depois em janeiro de 1990.

Em 1996, o Sr. Jurandir dos Santos Assis, filho do Sr. "Ginico Lopes", que já participava do grupo de caboclos, assumiu a direção do grupo reerguendo a cultura após seis anos sem se apresentar.

Em 2002 com a criação do Depto. de Patrimônio Histórico e Cultural da Prefeitura de Araponga, o grupo de caboclos recebe incentivo e apoio para as diversas apresentações na região, sendo reconhecido como importante instrumento de expressão da cultura e da identidade da comunidade de araponga.

Em 2003 com a fundação do CEPEC – Centro de Pesquisa e Promoção Cultural, o grupo de Dança Cabocla se consolida ainda mais no cenário da cultura popular de Araponga. Atualmente o Grupo conta com 30 (trinta) integrantes e está totalmente reestruturado com equipamentos e adereços.

A dança dos caboclos é mais que uma simples dança folclórica, é um teatro, onde é encenada a história, os costumes e a preparação do jovem guerreiro, são apresentadas em três atos: Dança com Porrete (Lança), Dança com Arco e Flecha e Dança da Trança de Cordas.

Como dito, atualmente o grupo folclórico e todas as atividades de pesquisa e resgate da língua e dos costumes Puris são dirigidos pelo Sr Jurandir dos Santos Assis, um dos sócios fundadores do CEPEC, que vem lutando pela preservação da tradição cultural indígena passando-a de geração.


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