O Muriqui da Serra do Brigadeiro



O muriqui-do-norte, ou mono-carvoeiro (Brachyteles hypoxanthus), o maior macaco das Américas, é considerado uma das 25 espécies mais ameaçadas de extinção do mundo, de acordo com os estudos desenvolvidos pela Conservação Internacional, em 2000 (Strier et al., 2005).

Distribuída originalmente pelo centroleste do Brasil, ocupando a região de mata Atlântica que se estendia do sul da Bahia até o norte de São Paulo, a espécie hoje se encontra seriamente ameaçada de extinção devido à intensa fragmentação de seu habitat. Cerca de apenas 4% deste ecossistema ainda resiste à degradação na região (FONSECA, 2003).

Acredita-se que a população total desta espécie não exceda 1000 indivíduos. Cerca de 30% desta população, ou seja, em torno de trezentos muriquis se encontram protegidos na Serra do Brigadeiro (Mendes et al., 2005, Moreira, 2008).


A Serra do Brigadeiro foi citada pela pioneira pesquisa de muriqui, realizada por Álvaro Coutinho Aguirre, da Academia Brasileira de Ciência, em 1971, como sendo naquela época, uma das poucas áreas ainda não legalizadas onde o muriqui ocorreria (AGUIRRE, 1971). Estudos posteriores, conduzidos pelo professor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Carangola/UEMG, Braz Cosenza, constataram a presença de não apenas um grupo, mas vários grupos de muriquis habitando o interior das florestas da Serra do Brigadeiro (COSENZA & MELO, 1998).

Apontada como área de “Extrema Importância Biológica” (COSTA et al., 1998; DRUMMOND et al., 2005) tanto para a conservação dos muriqui-do-norte, como para a conservação da própria Mata Atlântica, a Serra do Brigadeiro, com seus 18 mil hectares, representa uma esperança de que, se continuar intocada e protegida, muitos representantes da nossa fauna e flora poderão ser preservadas para as próximas gerações.

A fragilidade da situação da mata Atlântica, com seus apenas 4% de representatividade, não permite que “experiências” irresponsáveis sejam levadas a cabo. Trinta por cento de toda uma população do maior macaco brasileiro, ameaçado de extinção e protegido por lei, não resistirá à mínima interferência em seu já dilapidado ambiente.


Eduardo Marcelino Ventura Veado Anterior Diretor da Estação Biológica de Caratinga e Conselheiro da Sociedade Amigos de Iracambi

Aguirre, A. C. (1971). O mono Brachyteles arachnoides (E. Geoffroy). Anais da Academia Brasileira de Ciência, Rio de Janeiro, p. 1-53. Cosenza, B. & Melo, F. R. (1998). Primates of the Serra do Brigadeiro State Park, Minas Gerais, Brazil. Neotropical Primates 6:18-20. Costa, C. M. R.; Hermann, G.; Martins, C. S.; Lins, L. V. & Lamas, I. R (org.). 1998. Biodiversidade em Minas Gerais: um atlas para sua conservação. 2 ed. Belo Horizonte: Fundação Biodiversitas. 94 p. Drummond, G. M.; Martins, C. S.; Machado, A. B. M.; Sebaio, F. A. & Antonini, Y. (org.) (2005). Biodiversidade em Minas Gerais: um atlas para sua conservação. Belo Horizonte: Fundação Biodiversitas. 222 p. Mendes, S. L.; Melo, F. R.; Boubli, J. P.; Dias, L. G.; Strier, K. B.; Pinto, L. P. S.; Fagundes, V.; Cosenza, B. & De Marco, P. JR. (2005). Directives for the conservation of the northern muriqui, Brachyteles hypoxanthus (PRIMATES, ATELIDAE). Neotropical Primates 13 (Suppl.). Moreira, L. S. (2008). Socioecologia de muriquis-do-norte (Brachyteles hypoxanthus) no Parque Estadual da Serra do Brigadeiro, MG. Dissertação de mestrado, Departamento de Biologia Animal. Universidade Federal de Viçosa, Viçosa. Strier, K. B., Mendes, S. L., Boubli, J. P., Dias, L. G. (2005). Northern muriqui. In Mittermeier, R. A., Valladares-Pádua, C., Rylands, A. B., Eudey, A. A., Butynski, T. M., Ganzhorn, J. U., Kormos, R., Aguiar, J. M. & Walker, S. (eds). Primates in peril: the world’s 25 most endangered primates 2004–2006. (pp. 21–22). Washington, DC: IUCN/SSC Primate Specialist Group and Conservation International.